Não estamos imunes à crise mundial
Nosso governo tem divulgado que o país esta imune à crise mundial gerada pela crise imobiliária Norte Americana (hipotecas do subprime). Mais uma mentira espalhada Brasil a fora.
Nenhum país esta imune à crise, alguns são e serão mais afetados enquanto outros sofrerão menos.
No caso do Brasil, o mercado agrícola demonstra que a crise já chegou. As dificuldades dos produtores de grãos para conseguir levantar recursos para custeio da safra 2008/2009 são a maior prova desse fato. A maioria dos produtores depende das tradings para obter os recursos necessários ao custeio da safra e as mesmas captam esses recursos no exterior, que com a crise ficou limitado ou escasso.
”Diante das incertezas sobre o futuro da economia americana e dos efeitos nas commodities agrícolas, a safra brasileira mostra-se com uma única convicção: será “de última hora”. O primeiro levantamento da Safras & Mercado sobre o ciclo 2008/09 no Brasil mostra que até sexta-feira passada foram comercializados antecipadamente 7% da colheita prevista de soja, percentual que em 1º de agosto de 2007 era de 21% e, na média dos últimos cinco anos, 10%. A restrição de crédito por parte de tradings, que financiam sobretudo o plantio no Centro-Oeste, é apontada como um dos principais fatores para o “atraso” na negociação. Estimativa da Agroconsult prevê que as tradings vão oferecer 28,5% menos crédito nesta safra de soja que, por conta da alta nos custos de produção, precisará de 39% mais dinheiro para realizar a mesma área do ciclo anterior. “As tradings estão sendo afetadas pela menor disponibilidade de crédito internacional”, afirma Flávio França Júnior, da Safras & Mercado”.
O caso é grave e já estamos sendo afetados pela crise, no mesmo período do ano passado eu já tinha concluído o planejamento da safra, orçamento e efetuado a aquisição dos insumos, os quais na primeira semana de setembro, exatamente há um ano atrás, já estavam no deposito da fazendo, também já tinha feito hedge de 37% da safra de soja na forma de contratos de opção de venda. Esse ano o trabalho foi dobrado exigindo muito mais profissionalismo e atenção ao mercado e a política, cheguei a acreditar que não conseguiria plantar a próxima safra devido a grande dificuldade de adquirir insumos, que estão com um custo elevadíssimo, desproporcional aos preços da soja e do petróleo, que caíram nos últimos meses.
Poucas tradings e empresas do setor estão dispostas a fazer contratos de troca (insumos por grãos que serão entregues na safra) que ate então era a forma mais pratica de se adquirir os insumos necessários para operacionalização da lavoura. Com a crise externa, os altos custos, os problemas internos e as incertezas mercadológicas os nossos financiadores se retraíram e agora sentimos a crise na carne.
Consegui concluir a execução do planejamento e aquisição dos insumos na primeira semana de setembro, situação que no ano anterior já estava concluída no final de julho, contando que insumos como fertilizante e sementes demoram entre 15 e 40 dias para serem entregues, concluir a aquisição de insumos “em cima da hora” é um grande risco para o sucesso da safra, que tem o momento certo de implantação para cada cultura e seus respectivos cultivares, lembrando que o sucesso se define no plantio. De acordo com a experiência que tenho, costumo demonstrar que o planejamento representa 60% do sucesso da safra, a operação de plantio 30%, os tratos culturais 8% e a colheita 2%, essa representando o resultado das etapas anteriores. Esse conceito não quer dizer que as etapas subseqüentes são de menos importância, pelo contrario, são de enorme importância como as anteriores, sendo que em uma aplicação errada de defensivos pode se perder 100% da lavoura mesmo essas etapas representando 8% da definição da lavoura, ainda assim construir bases sólidas garante força e qualidade, facilitando o manejo e a colheita, sendo essas bases são o planejamento e a semeadura.
No meu caso, consegui concluir a tempo hábil o planejamento e aquisição dos insumos que serão entregues dentro do prazo, leia-se antes do inicio do plantio, pouco antes, mas de qualquer forma antes. Em relação há outros anos as dificuldades e os riscos estão sendo incrivelmente maiores, ainda que no final do prazo, nos últimos “minutos”, ainda foi dentro do prazo. Tempos de fortes emoções, como costuma dizer um engenheiro agrônomo que tenho como irmão “esta a fim de emoção, adrenalina, aventuras, riscos… não existe esporte mais radical do que plantar soja e milho no Brasil”.
Voltando aos empecilhos, os custos estão absurdamente desproporcionais a realidade do mercado como já mencionei acima, aqui na região um estudo divulgado no inicio de setembro demonstrou que a safra tem custos de produção quatro vezes maior que a inflação. A comparação dos últimos 10 anos entre os dados do Índice Geral de Preço ao Mercado (IGPM), divulgado pela Fundação Getulio Vargas no período e a evolução dos gastos no campo, aponta um custo de safras quatro vezes maior que inflação. Enquanto a inflação desta década apresentou uma variação acumulada de 50,98%, o custo de safra apresentou um amento médio de 200%. Analistas destacam que o aumento dos gastos dos produtores foi mais acentuado ainda na ultima safra, tendo semente e fertilizantes como principais atores desse cenário. Atualmente os fertilizantes são responsáveis por 40% do custo do uma lavoura em media, em uma pesquisa realizada pela Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso, 65% dos produtores estimam uma redução no uso de fertilizantes para a próxima safra.
Esse cenário se repete Brasil a fora, onde em muitos casos produtores não usarão fertilizante nenhum.
Essa conversa de que a crise não nos afetara é pura falácia política. A crise já esta nos afetando e com certeza no inicio do ano que vem veremos alguns resultados dela.
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SOBRE O AUTOR
Guilherme Frederico Lamb: Graduado em Administração de Empresas, agro-empresário do setor de grãos e diretor de Associação de Plantio Direto (APDVP).
Home-page: www.agroestiva.agr.br
E-mail: agroestiva@agroestiva.agr.br
Publicado em Guilherme F. Lamb
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